segunda-feira, 20 de Julho de 2009

A Tirania do Prato Limpo

Li o artigo de um fôlego. Esplêndido! Em poucas palavras, desconstrói o dilema que por vezes sentimos perante um prato meio cheio: “Será que o nosso filho comeu o suficiente? Será que não poderia ter comido mais um colher? Só mais uma? Uma assim pequenina?”.

Pamela Cytrynbaum, uma mãe como todas nós, com vitórias e receios, escreve no portal Psychology Today (
http://www.psychologytoday.com/blog/because-im-the-mom) sobre a Tirania do Prato Limpo. Isto é, sobre a quase-obsessão de alguns pais em que os filhos comam tudo o que está no prato. Mesmo que não lhes apeteça. Mesmo que, para comerem tudo, haja caras feias à mesa.
Eis um excerto de uma carta que esta mãe juntou à lancheira de Leah, a sua filha:

“Caro (professor, auxiliar, alguém com conhecimento de causa): obrigada por cuidarem tão bem da Leah. Aqui está o seu lanche. A regra em nossa casa é a de que é a Leah quem decide quanto é que ela quer comer. Hoje a Leah disse-me que ao lanche lhe pediram para ela comer tudo o que estava na lancheira. Ora, tendo em conta os estudos mais recentes sobre os hábitos alimentares saudáveis nas crianças, nós queremos que a Leah ouça o seu corpo e decida quando parar quando estiver saciada. Forçá-la a comer é algo que nós não aceitamos. Se ela regressar a casa com uma lancheira meia cheia, tudo bem, não há qualquer problema.
Obrigada por nos ajudarem a garantir uma Leah saudável e feliz!
Mãe da Leah.”

Pessoalmente, tive oportunidade de ler os conhecimentos de dois pediatras que eu considero excepcionais: o Dr Berry Brazelton, nos EUA, e o Dr Mário Cordeiro, em Portugal. Mesmo antes da Joana nascer interiorizei a ideia de que as crianças não devem ser forçadas a comer, mesmo que nós pensemos que elas pouco ou nada comeram. Porquê? Porque o forçar vai necessariamente conduzir a caras feias. A um clima de refeição tenso, nada agradável. E o que é que sucederá nas refeições subsequentes? A criança irá encará-las como momentos negativos e, aí sim, irá oscilar entre dois extremos: ou continua a comer pouco (porque, simplesmente, o ambiente à mesa não propicia ou apetite) ou então vai comer para além do seu apetite, receando represálias
por parte dos pais, os seus modelos educativos por excelência. Num oposto ou noutro, a criança irá celebrar um casamento pouco saudável com a comida. E que frutos nascerão desse casamento no futuro? Distúrbios alimentares (anorexia, bulimia, obesidade infantil). Ausência de auto-estima (“Só gostarão de mim se eu comer tudo...”). Como diz a mãe da Leah, a comida não é moeda de troca. Nem a palavra “dieta” significa restrição. Dieta significa “o que cada um come”, na proporção saudável versus não saudável.
Qualquer pai (leia-se pai e mãe) se preocupa quando o filho deixa mais comida no prato do que é habitual. Quando nota que o filho tem pouco apetite. Seja porque está doente, porque foi às vacinas, porque lhe está a nascer um dente, ou por qualquer outra razão. Tendemos a associar o apetite a algo positivo (“Ele comeu muito bem!”) e não negativo (“Ele hoje não está a comer nada...assim não pode ser...”). Precisamente por isso raramente nos questionamos: “Se o nosso filho comeu menos naquele dia é porque, pura e simplesmente, já estava saciado”.

O facto de, durante a gravidez da Joana, ter lido em inúmeras fontes de que a criança não deverá ser forçada a comer não quer dizer que eu não vacilasse. Claro que sim. Claro que houve momentos em que quis que a Joana comesse mais. Nomeadamente quando, aos nove meses, ela teve uma gastroenterite. A recuperação foi lenta mas a pediatra alertou-me para respeitar o ritmo dela. Caso contrário o seu estômago rejeitaria a porção que estivesse a mais. Umas vezes seguia à risca o que a pediatra me dizia. “Sim, apenas 60ml de leite”. Mas, por vezes, não resistia e tentava mais: “Vou tentar os 90ml, talvez...”. E a Joana vomitava...tinha que regressar à estaca zero. Começar de novo. Sem “experiências”. Degrau a degrau. Penso que esta é a melhor contra-prova que ilustra a Tirania do Prato Limpo e que, no fundo, mais me ensinou sobre a alimentação infantil e o saber respeitar o apetite individual. Mais tarde, quando a Joana começou a frequentar a creche e diminuiu de percentil no peso, resolvi fazer eu mesma as refeições dela em casa para ela levar. Durante poucos meses assim foi. Até ela recuperar o seu peso. A partir daqui, sei que quando a Joana me diz “Iá tá” ou “Naum” quando já não quer comer mais, é porque já está saciada. Se deixou mais comida no prato? Umas vezes sim, outras vezes não. Mas é o apetite dela. E é meu dever respeitá-lo. Mesmo quando por vezes há uma vozinha no meu sub-consciente que me diz: “Será que ela não comia mais uma colherzinha?”. É natural, são preocupações comuns a todas nós. Penso que elas nos acompanham sempre, em maior ou menor grau.
Como refere o Dr Berry Brazelton, “forçar uma criança a comer é o modo mais eficaz para criar um problema. Para que a alimentação represente um prazer para a criança, é necessário que seja ela a controlá-la – no que diz respeito a opções, a recusas e ao momento de parar de comer” (fonte: “O grande livro da criança”).
E, por último, deixo-vos uma deliciosa receita prescrita pelo Dr Mário Cordeiro, n’ “O grande livro do bebé” sobre a hora da refeição:


“- 200 grs de bom senso
- 200 grs de calma
- conselhos do médico ou de alguém experiente – um naco pequeno
- ausência de qualquer pitada de ansiedade
- 100 grs de divertimento
- alegria q.b.
- flexibilidade – um pacotinho
- determinação – nas mesmas quantidades que o ingrediente anterior
- afecto – q.b.”


Bom apetite!

16 comentários:

R. disse...

Também aprendi recentemente que de facto não se deve forçar as crianças a comer. O meu pediatra usou a palavra RESPEITO! No entanto, alertou: isso não significa que se deva mudar de alimentos a seguir à recusa, porque assim a criança vai interiorizar que já não gosta daquele alimento.
Se não quer mais naquele momento, muito bem. Mas da próxima vez, não trá bife com batatas fritas e ovo cavalo, mas sim a sopinha de legumes que na outra refeição não lhe apeteceu.

Sigo de perto o caso de uma criança cujos erros alimentares são mais que muitos e infelizmente sinto-me impotente para mudar o curso das coisas.

Sei que ela não come, não porque esteja saciada, mas porque meia hora depois poderá comer bolachinhas, iogurtes, gelados! Aqui sim está verdadeiramente o erro! E isso deixa-me verdadeiramente frustrada!

Borboleta disse...

Olá
Eu concordo com o artigo. Acho que não devemos pecar nem por excesso nem por falta.
Beijinhos

sonho de bebé disse...

Gostei da receita! Lol!
É assim mesmo!
Beijinhos

Mamã do Martim disse...

gostei imenso do post!!!

O meu pedi é desta opniao tb. Qd introduzimos os sólidos dise logo para nunca forçar a comer para nao haver essa rejeiçao e associaçao da hora de comer a algo mau. Disse tb para avisar na creche para fazer assim e a verdade é q o Martim sempre comeu muito bem, as vezes mais outras menos, mas sempre comeu bem.
Quando há 3 semanas ele deixou as maminhas :(, achava q bebia pouco leite (30/40ml) e obrigava-o a beber os 70 ml , era uma choradeira sempre...e um desgasate emocional. Na consulta o pedi deu-me logo nos orelhas :"o q lhe disse mamã? nao se obriga a comer. Assim termos de partir novamente do zero"
Fui-lhe dando a vontade dele e a verdade é q agora bebe 150 ml duma vez, sem choradeira, sem nada...ontem bebeu 180ml e hoje 160ml...ou seja, ao ritmo dele...

bjocas para os tres!
Sophie

carmo pinto disse...

realmente quem nao sabe é como quem não ve...
eu que volta e meia forço-as a comer tudo...mas eleas é que escolhem a quantidada pá....
que mal ke me sento agora!
mas ainda bem Joana ...que ainda vou a tempo de melhorar!
jinhos e obrigada por este post!
:)

Maria José disse...

Mais informação util
no outro dia perguntei-te onde tinhas comprado o cabalito para a Joana e não me disses-te, onde compras-te amiga
bjokas

Manuela disse...

E é mesmo assim Sofia. A Leonor sempre foi um pisquinho a comer. E sim houve alturas em que tentei "obrigá-la" a comer só mais um bocadinho (custava-me tanto vê-la tão magrinha). Mas não adiantou de nada. Agora na hora de comer da Leonor cantamos e contamos histórias até ela abanar a cabeça a dizer que já chega. Depois jantamos/almoçamos nós e ela lá continua à mesa a petiscar dos nossos pratos.

Piluskita disse...

Aqui, fico sempre a aprender :)!

nariguda disse...

Olá mamã Sofia, espero k esteja tudo bem com voçes. Temos saudades voças. Bjs da Bia para a madrinha

Mamãe Nathi disse...

Ótimo post, um alerta pra mim.
Certamente os horários das refeições agora, seguirão a receita do Dr. Mário Cordeiro.
Obrigada por compartilhar seu conhecimento e experiência.
Bjs***

pedradababy disse...

Concordo plenamente. empre foi esta a minha maneira de pensar desde o nascimento da minha mais velha há quase 11 anos (o inicio dos inicios das vozinhas nos bastidores a terem coragem de falar estas coisas). Na Gabi nunca forcei mas a verdade é que ela até aos 3 anos só bebia leite e papa, recusava-se a comer tudo o resto. A mais nova, embora eu acredite piamente em tudo o que escreveste e transcreveste para aqui, já não consigo, custa-me vê-la a não comer, custa-me vê-la tão pequenina, mas depois digo para mim mesma, deixa... ela tem que ser pequena (ambos os pais o são), deixa, ela hoje não come tão bem mas amanhã como melhor e de facto, ela lá vai comendo, se calhar não tanto como os outros mas come quase tudo. É assim mesmo!
A única coisa que acho que ficou a faltar neste tão bem escrito post, foi a referência às vozes exteriores. Ou seja, nós podemos ter a teoria como certa, mas há sempre vozinhas: "olha que ela não come nada", "insiste", "devias forçar mais", "a menina está tão pequena. Ela não come?". Bem, na minha opinião, devem ser recomendadas as mamãs a esforçarem-se por não dar ouvidos as essas pessoas que incomodam demais. Sim, porque se no que diz respeito a nós, não nos deixamos incomodar tanto com a opinião dos outros, já no que diz respeito aos nossos filhos acabamos muitas vezes por ser mais inseguros e deixarmos-nos melindrar com isso. Fica o meu conselho que me deixo afectar muitas vezes por este ruído horroroso! - e no que diz respeito à alimentação, toda a gente à nossa volta tem sempre um palpite a dizer.
Beijinhos grandes

Juliana disse...

Adorei!!!
Eu fico me descabelando com a Clara, que parece ter estômago de ovinho!!! Come muito pouco, mas prefere as vitaminas e sucos eleites, comida ela escolhe...Bom, com paciência eu chego lá né?
Beijinhoss
Ju e CLara

Lipa disse...

A Mariana sempre comeu tudo até há dois meses atrás. Também é certo que nunca a forcei a comer e fui tentando entender a quantidade que ela comia para ficar saciada. Agora não come nada de jeito. Põe a mão à frente da boca quando não quer, diz que já está (e às vezes nem sequer comeu uma colher de nada...) Muitas estratégias temos arranjado para comer nos ultimos tempos, sem forçar. Beijitos!

Mãe do Pitoco disse...

Concordo com tudo o que vc escreveu. parabéns, pelo post! Aqui em casa tb é assim. Não quer, não come. Insisto um pouquinho mais, mas se demonstrar que realmente não quer, não comerá, porque sofri demais quando era criança com minha mãe me botando até de castigo porque não queria comer tudo. beijos em vcs duas. Parabéns!

mamãe Juliana disse...

Oi amiga, passei rapidinho aqui mas adorei o texto.É bom entedermos que não devemos muito forçar nossos pequenos, mas sempre fico na dúvida se ele comeu o suficiente ou não.
beijos

Marisa disse...

Estou a passar por esta fase agora, mas ao jantar.
E realmente não vale a pena insistir com ele para comer, só causei birras e choradeiras intermináveis. Eu sei que ele gosta da comida, mas simplesmente não lhe apetece comer por malandrice.
O meu problema é que não quero deitá-lo à noite de barriga vazia, e por que é à noite também não me dá tempo para voltar com o mesmo prato se ele me pedir comida!
O que tenho feito ultimamente é lhe dar um biberão de leite mesmo antes de dormir! Mas também receio que ele se habitue a recusar a comida sabendo que a seguir vem o leitinho.
Espero que seja só uma fase, porque já estou com os cabelos em pé!!!