Dia 26 de Outubro, céu limpo, sol quentinho.Levanto-me às 8:00, tomo o pequeno-almoço e, cerca de uma hora depois, estava eu a preparar a minha mala, telefona-me a minha obstetra: a partir deste exacto momento, estou proibida de comer ou beber o que quer que seja. Sim, ela está a preparar-me para que o nascimento da Joana ocorra hoje. Pergunta-me ainda se dormi bem, se estou ansiosa e pede-me para estar no hospital pelo meio-dia para fazermos então a ecografia decisiva.
Entretanto, os avós e os tios ficam a par do possível nascimento da Joana e é uma fonte de telefonemas a enviar beijinhos! Os avós maternos, que estão no Porto, aprontam o saco de viagem, sendo que só depois de eu realizar a ecografia é que saberão se vão ou não fazer uma viagem relâmpago até à neta :-) A minha filhota é assim, de decisões rápidas!
Perto do meio-dia, e depois do pai ter colocado as malas no carro, saímos de casa. A sede começa a pesar, a fome nem tanto (o pai, de tanto subscrever a importância deste dia, até se esqueceu de almoçar!).
Não era ainda uma da tarde quando a minha obstetra me chama. Deito-me numa marquesa, virada para uma janela cujos estores descidos deixam passar a claridade do Sol. Olho para o branco do tecto. O pai está a meu lado. Sinto o gel frio no baixo vente e a pressão do Sonicaid. Invade-me a expectativa, como o ressoar de um tambor.Ouço: “Está na mesma”. Suspiro fundo e peço a Deus que me acompanhe. A Joana vai nascer hoje! Hoje! Esta tarde ou esta noite! A minha obstetra chama uma ecografista para analisar a mega-bexiga. Também ela é de opinião que devemos agir. É solicitada uma segunda opinião, de outra obstetra, que vai no mesmo sentido.
A minha obstetra passa-me uma ordem de internamento, sendo que o pai vai até à recepção tratar das burocracias. Enquanto espero por ele, telefono aos meus pais: “Podem vir, a bexiga da Joana continua na mesma, ela vai ter que nascer hoje.” Admiro-me com o meu sangue-frio mas, de quando a quando, vem-me um soluço à garganta. É um soluço de emoção, hoje vou ver a minha bolotinha!
A minha mãe emociona-se. Dou-lhe as últimas indicações de como chegar ao hospital, onde me localizar e que números de telefone é que ela poderá contactar para saber alguma notícia. Despedimo-nos com um até já. Até já, mãe! Até já, avó!
Às 14:02 dou entrada no meu quarto, juntamente com o pai. A enfermeira pediu-me para vestir uma bata com atilhos nas costas, indicou-me uns chinelos rasos de cor branca junto à cama e dois Microlax que deveria administrar por forma a limpar os intestinos. Quando estivesse pronta, era só accionar a “campainha”, inserida num pequeno comando rectangular que também tinha mais dois botões: um para acender e outro para apagar as luzes. Para além deste comando, tinha outro à mão, com três botões, para regular a altura da cabeceira, a altura dos pés e ainda a altura da cama.
Enquanto me preparava, o pai foi ao carro buscar as malas. É impressionante como ambos não estávamos nervosos, com aquela ansiedade que nos faz andar de um lado para o outro. Havia sim um friozinho na barriga mas nada mais. Eu acho que, se o parto fosse programado com antecedência, haveria lugar para o nervoso miudinho se instalar pois contaríamos os dias para o parto. Neste caso, como o parto chegou de surpresa, só houve lugar para os preparativos-chave: fazer malas e esterilizar biberons, chupetas e tetinas.
De intestinos limpos, acciono a campainha. Enquanto isso, chega o berço transparente da Joana com um edredon branco e azul e, aos pés do berço, um saquinho de alças, também ele azul, para colocar a primeira roupinha da bolotinha: um babygrow branco da Prénatal, um body e calcinhas brancas, um casaquinho branco e um gorro cor-de-rosa. Para além disso, tinha também à mão uma manta de lã em cor creme.
Eram cerca das 14:30 quando me foi colocado um cateter no braço esquerdo, um soro, uma pulseira rosa identificativa no pulso esquerdo e uma sonda urinária para quando a minha bexiga estivesse a “dormir”.
A enfermeira diz-me que havia mais duas futuras mães à minha frente e que depois era a minha vez de se conduzida até ao bloco de partos.
Deitadinha e sem querer ver televisão, recebo a “visita” da minha obstetra que me pergunta como estou e de uma enfermeira que trás consigo um termo de responsabilidade para eu assinar. Chega o pai. Por volta das 15:15, duas enfermeiras vêm-me buscar. Está na hora! À saída do quarto, recebo um beijinho de até já do pai, que conduz o berço da Joana. Lá vou eu sobre rodas. Contorno uma esquina e deixo de ver o pai. Duas portas amarelas abrem-se automaticamente e entro numa sala iluminada de luzes brancas. Há música clássica a tocar baixinho. Sou transferida para a mesa de operações e a minha caminha sai porta fora. Na sala, duas enfermeiras preparam instrumentos, frascos, compressas e recipientes redondos. Sou ligada a um esfigmomanómetro que irá medir a minha pressão arterial.
Aparece o anestesista que é uma simpatia. Achei-o parecido com o José Carlos Malato, o mesmo tipo de cara e sorrisos prazenteiros. Coloca-me à vontade, dizendo-me que, durante a administração da epidural, me irá explicando tudo o que faz. Vamos falando sobre as nossas profissões. O ambiente é de descontracção, também entre os profissionais. Até parece que não vou fazer uma cesariana!
Surge a minha obstetra toda “artilhada”: bata, chinelos de plástico e touca verdes, luvas brancas e uma espécie de meio funil transparente colocado à volta da boca e nariz.
Mais tarde, surge também uma ecografista.
Sento-me num dos lados da cama, bem na pontinha, com os pés assentes num banquinho. Chegou a hora de administrar a epidural: posição caracol, braços em torno dos joelhos e queixo bem junto ao peito. A primeira tentativa de epidural falha. À segunda é de vez, após ter sentido um desconforto passageiro provocado pela agulha oca.
Deito-me. Começo a sentir que da cintura para baixo o meu corpo adormeceu, excepto os pés (consigo senti-los ao longe). Olho para o grande e redondo foco de luz em cima de mim. É colocada uma cortina azul suspensa num pequeno varão metálico um pouco abaixo do meu peito.
Pouco tempo depois sinto movimentos ritmados dentro de mim, como se estivessem a remexer à procura de algo. Vezes há em que o meu corpo vai para a frente e para trás. O anestesista diz-me para não me assustar, que não sinto nada. E, de facto, assim é. Aguardo a chegada da minha bolotinha. Quantos minutos já terão passado?
Comento com o ecografista que a Joana, provavelmente, nascerá perto da hora em que a mãe nasceu, 16:30, ao que ele responde que será antes (a Joana nasceu às 16:07).
Assistir ao nascimento da minha filha é algo de inesquecível. É uma imagem que acompanhará a minha vida. Quando o anestesista me coloca a mão debaixo da nuca e diz: “Agora vai ver algo de muito bonito”, eu vejo a Joana surgir de mim, primeiro a cabeça, depois os braços e por fim os pés. Exclamo emocionada “Olá, filha!” e a minha cabeça volta a deitar-se. O anestesista congratula-me: “Parabéns, mãe!”.
Ouço-a chorar a caminho de uma sala de observações anexa e com amplos vidros. “Já sou mãe!”, o meu coração rejubila. “Tem um choro tão bonito!”, lembro-me de pensar. Continuo em estado de graça. O meu olhar detém-se na sala de observações, não vejo a Joana mas visualizo o movimento de médicos que a examinam: o Índice de Apgar regista uma pontuação de 10 ao primeiro e quinto minutos. Boa, filha!
Pouco tempo depois, já deveria eu estar a ser suturada, vem uma enfermeira com a Joana ao colo, embrulhadinha uma manta branca, para eu lhe dar um beijinho. A carinha da minha filha é linda, tão redondinha! Tem os olhos fechados. Beijo-lhe o nariz e digo-lhe “Bem-vinda, filha!”
A partir daquele momento, a Joana terá que ser levada para realizar exames à bexiga. Sinto saudades dela logo no segundo depois de a conduzirem para fora do bloco de partos. Tenho pena de não ter podido sentir a minha filha pele com pele, logo a seguir ao nascimento dela...era um momento que eu idealizara a partir de imagens em livros sobre a gravidez e o parto e que não se concretizou dada a necessidade de efectuarem um exame minucioso à bexiga da Joana.
Entretanto, fico pronta. Entra a minha caminha e sou transferida com a ajuda de duas enfermeiras. Começo a sentir frio. Muito frio (o bloco de partos estava um gelo...). Abrem-se as portas e lá vou eu rumo ao recobro, onde permaneço quase duas horas.
A enfermeira coloca-me um edredon aquecido, mede a minha tensão arterial, repõe o soro e “visita” a sonda urinária. Apalpa ainda o meu abdómen e examina os meus mamilos.
Chega o pai, todo babado: “A nossa filha é tãããoooo linda!”, exclama. Dá-me um beijinho e pergunta como é que correu a cesariana e como é que eu me sinto. Eu digo-lhe que estou pronta para outra e começo a bater o dente!
Acho que demorou tempo demais para me trazerem a Joana! Eu sei, ela estava a ser examinada mas as saudades eram enormes...quando ela finalmente chegou, vinha embrulhadinha numa manta branca e eu reparei que o babygrow lhe estava um
bocadinho grande, mesmo sendo para 0 meses. Abracei a minha filha, dei-lhe beijinhos e deitei-a junto ao meu peito esquerdo. Tão enroscadinha que ela estava! Reparei que ela gemia, pensei que sentisse frio, e puxei o edredon mais para cima.
A enfermeira pergunta-me se lhe quero dar peito, ao que eu respondo que sim. Contudo, a Joana não pega bem nos mamilos, nem mesmo nos bicos de silicone. A enfermeira decide, após algumas tentativas, preparar-lhe um biberon e, sim, ela pegou um bocadinho, não muito.
Eram cerca das 19:10 quando regresso ao quarto com a bolotinha. Telefono aos meus pais que estavam quase a chegar (estavam presos no trânsito à entrada de Lisboa). Entretanto, vêm os tios e avós paternos ver a Joaninha que continua a gemer. Tento consolá-la. Chega a minha obstetra com boas notícias: não há qualquer problema com a bexiga da Joana, tendo aquela esvaziado após o parto. Que alivio!
Aparece a enfermeira chefe com medicação (analgésicos), olha para a Joana prolongadamente e declara: “Esta bebé não está bem. Os gemidos, em vez do choro, não são bom sinal. Ela precisa de se aquecida.” A Joana é então conduzida para uma incubadora, na unidade de cuidados especiais.
No meio de tudo isto, chegam os meus pais e o jantar (sumo de maçã e um caldo de frango). Não tenho muita fome. Quero a minha filha!
Cerca das 21:00, a mesma enfermeira que cuidou de mim no recobro, incita-me a levantar. Ooops, estou um bocadinho tonta. Vou à casa-de-banho fazer a minha higiene intima para depois vestir um pijama e um robe e ir ver a Joana. O pai empurra a minha cadeira de rodas e, quando entro na unidade de cuidados especiais, o um coração cai-me aos pés: a Joana continua na incubadora, está toda despida (só tem a fralda posta) e fios coloridos (fios demais) partem do peito e da boca dela para uma máquina que mostra inúmeros (e incompreensíveis) gráficos. Sou inundada por uma tristeza que não se compadece com “A Joana está estável. Não se preocupe que ela vai ficar bem...”
Nunca pensei que os gemidos fossem sinal de que algo não estava bem. Será que, se tivéssemos actuado logo aos primeiros gemidos, ela teria necessidade de tanto aparato de fios? Mas como poderíamos nós saber?
O diagnóstico da Joana não tarda a chegar: Síndrome de dificuldade respiratória devido à existência de pouco surfactante nos alvéolos pulmonares dela. A cada movimento respiratório, a barriguinha dela é como que sugada para dentro (em vez de para fora), dando de seguida um salto brusco que nos aflige. Será que este respirar não lhe causa dor? Ela dorme. Faço-lhe uma breve festinha numa das bochechas e digo-lhe que a amo muito, para ser forte e ficar boa num instante.
Quero chorar e não aguento o caldo de frango no estômago. Logo ali, vomito.
Regresso ao quarto. Vou com o pai mas, ao mesmo tempo, vou sozinha. Ele conforta-me o melhor que pode e eu sei que ele precisa de ser confortado também. Mas não consigo encontrar forças dentro de mim para fazer o que quer que seja. O meu pensamento vai todo para a Joana, a todo o minuto.
É noite cerrada mas eu não tenho sono...
A pulseira cor-de-rosa identificativa da mãe
Bloco de Partos nº2: foi aqui que tu nasceste!

A caminha da mãe

Os quadros para os quais a mãe olhava muitas vezes enquanto deitada

O sofá-cama do pai e uma cadeira muito confortável
Sala dos Cuidados Especiais. A incubadora da Joana foi a primeira a contar da direita